dez 16

- É verdade. Por que mentiria para você?
- Não sei. Para me impressionar, talvez.
- Não preciso disso. Basta eu dizer meu salário.

Ela não riu. Ele ficou envergonhado.

- Desculpe-me! Eu não quis ofender. Foi uma piada.
- Sei que foi uma piada. Mas não entendi.

Ele coçou a cabeça. E o queixo. E a testa. Assoviou e cantarolou. Tudo para não se questionar o porquê da insistência em conquistar aquela garota. Bonita e de belo corpo. Sim. Mas nada de interessante quando abria a boca. Uma balança em desequilíbrio. Contudo, ganhava a beleza.

A música ao fundo convidava casais ao salão. Ele ficou receoso. “Será que ela dança em par? Será que curte pagode? Que faço aqui?”.

- Quer dançar?
- Não. Eu sei cantar. – enfática.

Ele ficou em silêncio, raciocinando.

- Quem não sabe cantar, dança!
- Aaaah! – ele quis se matar.

A música corria sozinha. Ele desejava uma dança. Ao menos uma. Nada mais. Dois passos, aqui-ali-aqui, gira-um-dois-gira-três-quatro… amava dança de salão.
O refrigerante com gelo e limão que pedira já estava quente. A conversa estava desanimada. Uma mulher bonita, sem cérebro, é incompleta. Desejava sair, sem saber como.

- Sim… Você é programador.
- Isso.
- E qual programa você apresenta?
- Sou programador PHP.
- Qual canal???
- Entende de tecnologia de informação?
- Li algo sobre televisão digital no Brasil, mas não estou inteirada.
- Não é isso. Eu faço sites, sistemas, desenvolvo isso numa linguagem PHP.
- Ah! Quando era criança sabia isso.
- Mesmo? – interessou-se.
- Espera… Vopa cêpê épi umpo rapu pazpa inpe tepi respo sanpu tepa.
- Que é isso? – confuso.
- Bom, não lembro se era bem assim. A língua do P, menino!

Ele coçou o queixo, a testa, as bochechas. Apertou as mãos, inclinou a cabeça e fechou os olhos, como se rezasse. Contou, em silêncio, até 20. Respirou. Ouvia a música que tocava. Desejou expulsar o DJ dali.
Abriu os olhos. Observou a menina. Um sorriso bonito. Desejou esganá-la.

- Você usa internet, suponho. Acessa o Orkut, não é mesmo?
- Sim. Amo!
- Então, eu faço isso.
- Orkut?
- Site.
- Mas Orkut não é uma rede de relacionamentos?

A noite parecia conspirar contra ele. “Por que estava ali?”. Entrara naquele local para comer algo. Tudo acontece de uma forma inesperada, ás vezes. E incompreensível.

- Sou web designer.
- Sou Carla Magnólia, prazer! Pensei que não me diria seu nome…

Ele levantou-se. Estendeu a mão e deu um romântico beijo em sua face. Agradeceu pela noite maravilhosa e interessante. Inventou uma desculpa, para que ela não se sentisse constrangida, e se encaminhou à porta. Saiu abismado. E não olhou para trás.

Por Mateus Modesto

Dessa vez, a crônica está ligado à área de T.I. =)

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dez 6

A fila chegava a uns 30 metros. E não seria exagero. Mulheres, crianças, velhos e homens esperavam em pé, ou sentado, pela famosa e deliciosa pizza da casa número 25. Todas as noites eram assim.

Miguel passava pela rua quando viu a multidão. Mudara seu itinerário por uma questão simples: ali poderia consertar sua bicicleta. Apavorou-se de imediato. Quando viu o anúncio em letras garrafais, porém, animou-se: “Pizza de graça – sexta”. Daqui a dois dias.
O pequeno ajudante de pedreiro terminou seu percurso, já com a bicicleta consertada, e agendou em sua cabeça. O sorriso tomou conta de sua face. Homem para gostar de comer era aquele. Sentia prazer, entrava em júbilo, dançava e cantava quando se empanturrava. Os olhos cresciam, a boca ficava inquieta, as mãos trêmulas. Geralmente não se comportava de modo adequado nessas horas.
O serviço na obra foi dos mais duros naqueles dias. E ele glorificou ao Senhor por isso. Mais trabalho, mais fome. Precisava recompor-se na sexta-feira. E faria com imensa alegria.

- Não vai levar a marmita? – espantou-se a esposa.
- Não, hoje não.
- O nome dela?

A esposa desconfiou que Miguel a estivesse traindo. Não levar almoço significava, para ela, que ele estava comendo em outro lugar. Com fome ele não ficava. Não suportava. Além disso, não trabalhava e era um mau humor irritante.

- Vou fazer apenas um lanche. Porque, de noite, eu e você, meu amor, vamos comemorar.
- Comemorar o quê?
- Nossos anos de casamento.
- Mas nem é o mês de casado.
- Não importa. Encontraremos outra justificativa, então. Esteja pronta às sete. Vou buzinar…
- Vai ganhar um carro?
- …com a bicicleta. – irritou-se.

O dia passou uma maravilha. Miguel trabalhou, empenhou-se, ajudou mais do que o normal. Surpresa para todos. Cada hora a menos era uma alegria para o excelente ajudante de pedreiro. Até que a noite chegou.
Correu até em casa. Buzinou. A esposa estava elegante: um lindo vestido preto e uma sandália prata; perfumada e com os cabelos penteados de modo nunca já visto. Ele deu um beijo e mordeu seus lábios. “Linda!”.
A casa 25 estava lotada. Como de costume. Ele sentou-se nas cadeiras espalhadas pela calçada. Parecia dia de festa. A mesa ao lado estava cheia de crianças. “Odeio meninos”, pensou. “Pegam tudo e não comem nada”.
Levantou-se e foi ao balcão fazer o pedido.

- Oi! Boa noite. Eu quero oito pizzas.
- Oito?
- Pouco? – assustado.
- Não, não… Sabores?
- Variados. Menos de milho e presunto. Da brotinho.
- Como!? – a mulher se ofendeu.
- A pizza pequena. “Brotinho” o nome, não é!?

A noite correu maravilhosa. Risos e gargalhadas. Os dois beijaram-se e conheceram novas pessoas. Umas novas no bairro, outras nem tanto. A conversa era interessante, até que um comentário fez esvair toda alegria de Miguel.

- A pizza de Graça é deliciosa, não!?
- Sim. Esse projeto que ela faz nos bairros, diminuindo o preço da pizza e mantendo a qualidade, é perfeito para nós. – riu.
- Como assim? É de Graça? Não é de graça?
- Anh? Não entendi a piada…
- Piada vocês contaram. Quer dizer que vou pagar pelo que comi?
- Não é óbvio?

Miguel começou a suar. Ficou impaciente. A esposa não havia entendido ainda. Ele cochichou em seu ouvido e pediu que ela fosse ao banheiro e, de lá, descesse para casa. Mesmo temendo uma loucura do marido, fez conforme ele falara.
Quase onze da noite, Miguel aparece. A roupa estava rasgada, o cabelo sujo de areia e folhas e a bicicleta quebrada. Ela o abraçou fortemente. Sabia que deveria ter ouvido seu instinto feminino.

- Que aconteceu?
- Nada. – calmo. Desci ladeira abaixo quando fugia do cachorro que a dona da casa soltou em cima de mim. Eu propus lavar os pratos, reformar a cozinha dela, limpar o quintal. Ela disse que eu deveria ir dar comida ao cão.
- E?
- Disse “sim”. E lá veio o bicho, feito touro. Só deu tempo de montar na bicicleta e pedalar. Acabei perdendo meu sapato.
- Meu querido!
- Eu fiquei mais frustrado porque deixei cair a última fatia da pizza… Que mole!

Por Mateus Modesto, publicado no O Guaruçá

Apesar de pretender focar em posts sobre TI, continuarei postando algumas crônicas como essa.

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jul 7

Enfim, formado. O último semestre parece mais uma fusão de todos os outros sete. Uma loucura! O tempo pra dormir tinha que ser substituido pelo tempo de trabalho. A primeira coisa que pensei ao terminar tudo foi ir para o interior, mais precisamente para roça do meu avô. Essa crônica de Mateus retrata bem o porquê de meu desespero pela viagem.

É impossível não gostar de uma roça. Abandonar por uns dias ou horas a confusão da cidade, a fumaça dos carros, o corre-corre no trabalho e descansar à sombra de uma bela árvore. A natureza é perfeita.

Roça que é roça tem uma cancela na entrada. Uma bela árvore - na roça do meu avô é um enorme pé de umbu - um cachorro - do tipo que olha alguém chegar e se deita novamente, como se estivesse apenas registrando - e uma cadeira ou um banco para observar as pessoas - numa roça é incomum não saudar quem passa.

Se a roça do meu avô tivesse um nome, seria Roça do Velho Bidão. Estaria num pedaço de madeira pendurado na frente da casa. Mas isso é só um detalhe. O que tem não tem em tantos outros lugares. O enorme umbuzeiro dá uma sombra de dormir. E sentar na cadeira de balanço, sentindo o falar do vento e o dançar da folhas nos dá sono. Melhor que isso, só cochilando numa rede.

A roça tem cheiro de infância. Arrancar umbu, comer acerola e serigüela ainda no pé, o barulho das galinhas e o inconfundível odor dos seus excrementos, o cachorro sonolento e a conversa dos pássaros. Andar descalço na terra, jogar bola e correr pela casa. Fogão à lenha, geladeira velha, madeira estocada e um quartinho cheio de bagulho, desde remédio para animal à esteira rasgada.

João Modesto, o Bidão, meu avô, tem mais de 80 anos de conversa. Faz pouco tempo que aderiu ao estilo roceiro. Velho gentil, pouco cabelo, bigode clássico, chapéu de palha, chinelos… só faltou aquele matinho no canto da boca. Anda como se não tivesse pressa, apresentando as plantações da sua amada roça: é melancia, abóbora, cebolinha, mamão, manga, pitanga, algodão, mamona. Só não tem rio. Mas tem um açude, em fase de conclusão ainda. Alegria dele é receber todos os filhos, netos e amigos. Quanto mais cheia, melhor. Prosear e plantar são verbos constantes em sua nova vida.

Na roça, todo mundo é bem-vindo. Seja rico ou pobre. Feio ou bonito. Casado ou solteiro. Só não vale falar de trabalho, criança não pode se emburrar por causa da falta de computador e reclamar por causa de arranhões nas pernas. Quer dizer, não se pode reclamar por coisa alguma. Roça é lugar de relaxar e viver o que não se vive. Contemplar a natureza, subir em uma árvore, observar o céu - o que pouco se vê em uma grande cidade.

Um dia vou ter uma pequena roça. Ou uma grande fazenda. Quero ver as flores brotarem e me cortar com seus espinhos. Varrer a terra e ajuntar as folhas. Quero tirar leite da vaca. Quero ver o sol nascer e me encantar com o canto do galo. E ouvir a sinfonia dos animais, cada um expressando seu som e dando vida ao lugar. Sentar no chão frio, fazer bolinhos de feijão com farinha e comer com a mão.

Quanto mais vivemos na cidade, mais sentimos falta da natureza. O cheiro da terra molhada é substituído pelo mormaço do asfalto, o mugir da vaca pelo ronco do motor e o som das folhas das árvores pelo das buzinas. Espero não perder o prazer de visitar o campo. E de andar descalço. E de tomar banho de rio. Ou de balde. Enquanto o dia não chega, resta-me sonhar.

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abr 9

Aloísio apareceu sem fazer barulho. Retirou as outras chaves do chaveiro e colocou-as no bolso. Tirou os sapatos e entrou de meias em casa. Respirou baixinho, e, em alguns momentos, prendeu o ar. Trancou a porta e passou o ferrolho bem lentamente.

Sempre que Aloísio chega tarde da noite, por causa do trabalho, sua esposa acredita que ele a estava traindo. E é uma grande discussão, não se respeitando os decibéis e a madrugada. Mas ele sempre prova que ela está enganada. Para isso, é necessário ligar para todos os seus colegas, inclusive para o chefe. E no outro dia, é a maior gozação. Ele precisava evitar tudo isso.

Olhou para a sala. Escuridão total. Ficou rememorando a posição do sofá, dos brinquedos das crianças, da mesinha, de algum sapato da mulher… Curvou-se uns trinta graus e não tateou nada. Abaixou-se mais e tocou o sofá. “Se ele está aqui, mais a oeste deve estar a mesinha. A um metro, o caminhão de João”, pensou. Deu um passo e a dor foi na canela. Enganara-se quanto à posição da mesinha: ela estava mais a leste. Deu um grito inaudível. Contorceu-se por uns minutos.

Decidiu ser mais cuidadoso. Ajoelhou e andou tateando o chão. Encontrou o caminhão e o carrinho de João. Mas não contava com Lico, o bonequinho do pequeno Lucas. Apertou e ele emitiu um som. Aloísio ficou estático. Clamou para que ninguém acordasse. Ninguém levantou. Respirou aliviado. Andou um pouco mais e bateu com a cabeça na outra mesa. Tudo isso para não ligar a luz e acordar a família.

Engatinhou até a cozinha. Fechou a porta e ligou a luz. Foi à geladeira, tirou a jarra de água, o requeijão cremoso e o leite integral. Ligou a cafeteira. Arrumou a mesa com pães, biscoitos e bolo. Voltou à geladeira e trocou o leite integral pelo desnatado. Fez seu lanche noturno, arrumou tudo e lavou os pratos. Deu um arroto de satisfação. Desligou a luz e abriu a porta cuidadosamente. Ajoelhou-se.

Andou deitado feito um soldado e foi até o banheiro. Bateu a porta. Ficou receoso em ligar a luz – havia uma janelinha entre o banheiro da sala e o seu: podia refletir no quarto. Sentou-se no vaso. Mas fora alarme falso. Lavou as mãos e saiu.

Parou defronte ao quarto. Abriu vagarosamente a porta e entrou na ponta dos pés. Fechou a porta, tirou a roupa. Lembrou-se que não podia tomar banho ali. Ela poderia acordar. Saiu e foi até o outro banheiro. Não ligou a luz. Lavou o corpo com um sabonete dermatológico e o cabelo com um sabonete líquido feminino – e íntimo – e com um lavador de calcinhas. Enxugou-se com a toalha de rosto. Saiu do banheiro.

Entrou no quarto, abriu o guarda-roupa, a gaveta e ficou tateando uma cueca. Pegou qualquer uma. Vestiu pelo avesso. Andou até a cama. Sentou-se do lado direito e se deitou. Mas não se lembrou que sua esposa é espaçosa e geralmente ocupa toda a cama quando sozinha – esmagou seu braço. Ela acordou de susto. E gritou de medo.

João levantou e chamou pela mãe. O pequeno Lucas acordou e abriu o berreiro. A empregada veio com um martelo de bater carne em uma mão e com o rolo de macarrão na outra. Até os vizinhos ouviram, ligaram as luzes e abriram as janelas. Aloísio respirou fundo, frustrado. De nada adiantara ser tão cuidadoso.

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dez 20

Mateus Modesto é jornalista. É também meu primo. Sabe aquele humor inteligente que poucos sabem fazer? Pois é. Ele é um desses poucos. Ele escreve crônicas também, e transcrevo aqui uma das que mais gostei.

Uma das coisas que Odílio mais detestava era ouvir erros de Língua Portuguesa. Vivia corrigindo os colegas de trabalho. Principalmente o chefe. Muitos o odiavam por isso. Tornava-se um chato. Insuportável. Mané. Mas era um excelente profissional. Sempre pronto para ajudar um colega.

Outra coisa que Odílio não gostava era ser incomodado quando estivesse trabalhando. Era um dos menos importantes na firma, mas o mais prestativo. De vez em quando era selecionado para fazer atividades fora da empresa.

- Odílio, ontem eu quase fui atropelado. A moto veio em alta velocidade e eu se joguei para o lado…
- “Se joguei”? - interrompeu Odílio. - O correto é: “me joguei para o lado”.

O colega fez uma cara de desentendido.

- Você disse SE. O certo é ME.
- Anh?
- O SE é para outro, quando estamos falando dele.
- Dele quem? Do Armando?
- Não… O ME é quando… - parou e pensou. - Vou dar um exemplo. “Eu me lavei”. “Eu se sujei”. Qual está certo?
- A segunda frase.
- Não!
- Claro que sim! Veja suas mãos. Você está com as mãos sujas.
- Não, eu apenas fiz uma suposição.
- Uma o quê???

Odílio respirou fundo para não explodir.
- Pronto. - Levantou e bateu o braço na mesa. - “Eu se bati na mesa”. Correto?
- Sim.
- Não!
- Como não? E por acaso você bateu na cadeira?
- Meu fi… João… João, querido… eu falo da oração.
- Oxe! Qual? Você é devoto?
- Não, rapaz! A frase. Falo da frase…
- Qual delas?
- “Eu se bati na mesa”!
- De novo?
- Meu… o que você quer, afinal???
- Queria que você comprasse um band-aid. Como eu ia dizer, eu se cortei.
- “Me cortei”.
- Também? Pega dois, então.

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